John Ashbery


GLAZUNOVIANA


O homem do chapéu vermelho

E o urso polar, está também aqui?

A janela a dar sombra,

Isso está também?

E todas as pequenas ajudas,

As minhas iniciais no céu,

O feno de uma noite árctica de Verão?


O urso

Cai morto à vista da janela.

Tribos encantadoras acabaram de se mudar para o Norte.

Na noite trémula, os andorinhões ficam mais densos.

Cercam-nos rios de asas e uma vasta tribulação.



PARTÍCULAS MÉDIAS


Por vezes algo como um segundo

lava o pavimento desta rua.

Ao pai e aos seus dois assistentes

dão autorização para partir.

Um deles, uma mulher, pergunta: “Por

viemos aqui em primeiro lugar,

para esta cidadela de humidade?”


Alguns dias são piores do que outros,

mesmo que não se possa neles acreditar.

Mas isso nunca foi a minha preocupação,

argumentou o doente.


Canta, rebola ou nunca sejas criticado por nós

em sentido marmóreo, ou com punho para tal.

Parabéns ao príncipe que até aqui viajou

para negociar a nossa libertação, se podes crer nisso.


Tens razão. As baladas estão a voltar

para a atmosfera.

Não regressarão.

Fabrica a tua paz.



AÇO E AR


E agora não me consigo lembrar de como teria

conseguido. Não é um canal (confluência?), mas um lugar.

O lugar, de movimento e uma ordem.

O lugar da velha ordem.

Mas o final do movimento é novo.

Levando-nos a dizer o que estamos a pensar.

Afinal, é muito semelhante a uma praia, onde estás

e pensas em não seguir mais longe.

E é bom quando não chegas mais longe.

É como um pretexto que te agarra e

te coloca onde sempre quiseste estar.

Até aqui é justo estar a ficar irritado, ter irritado.

Assim não há promessa no outro.

Aqui está. Aço e ar, uma presença manchada,

pequena panaceia

e sorte para nós.

E depois ficou tudo bem.



O PROBLEMA DA ANSIEDADE


Passaram cinquenta anos

desde que comecei a viver nessas cidades sombrias

de que estive a falar.

Bem, não mudou grande coisa. Ainda não consegui perceber

como ir da estação do correio até aos baloiços do parque.

As macieiras florescem no frio, não por convicção,

e o meu cabelo é da cor da penugem do dente-de-leão.

Supõe que este poema era sobre ti - poderia

incluir as coisas que cuidadosamente deixei de fora:

descrições de dor e de sexo, e de como as pessoas

se comportam evasivamente umas com as outras? Nã,

parece que está tudo num livro qualquer. Para ti

guardei as descrições das sanduíches de frango,

e o olho de vidro que me olha com espanto

da lareira de bronze, e nunca será apaziguado.




John Ashbery in Poems, Poemhunter, The World's Poetry Archive, 2012.

Versão Portuguesa de Luísa Vinuesa.

Outros poemas...

Cave canem

Papéis soltos

As tecedeiras

Génesis

A boca da página

Os alquimistas

Pélago da terra

Tango

Plano fixo

Branco ou tinto