Robert Graves
A DEUSA BRANCA
Todos os santos a desprezam, e todos os homens sóbrios
Dominados pela medida aúrea do deus Apolo -
Em desprezo da qual naveguei para a encontrar
Por regiões distantes, onde provavelmente residiria
A quem acima de tudo, desejava conhecer,
Irmã da miragem e do eco
Foi uma virtude não permanecer,
Seguir o meu caminho impetuoso e heróico
Procurando-a no topo do vulcão.
Entre o gelo compacto, ou onde o rasto se apagava
Para além da caverna dos sete adormecidos:
Cuja testa larga e alta era branca como a de qualquer leproso
Cujos olhos eram azuis, com lábios cor de sorveira.
Com cabelos encaracolados cor de mel até aos brancos quadris
A seiva verde da primavera agita-se na jovem floresta
Celebrando a Montanha Mãe,
E cada pássaro canoro grita um canto por ela;
Mas sou agraciado, mesmo em Novembro,
A mais pura das estações, com uma imensa sensação
Da sua magnificência desnudada
Esqueço a crueldade e a traição passada.
Sem me importar onde o próximo raio de luz possa cair
AMOR PERDIDO
Os seus olhos estão tão vivos de tristeza,
Que pode observar a erva ou a folha
Crescer a cada instante; pode
Ver claramente através de uma parede de sílex,
Ou observar o espírito assustado a fugir
Da garganta de um morto.
Consegue ouvir em dois condados diferentes,
E captar as tuas palavras antes de falar.
O bicho-de-conta ou o fraco clamor da larva
Ressoa no seu triste ouvido;
E um ruído tão subtil que desafiaria
A crença: - o som da erva a beber água,
A conversa das minhocas, o ruído das mandíbulas da traça
A abrir buracos no tecido:
O gemido das formigas que carregam
Cargas gigantescas por amor à honra -
Os seus tendões rangem, a sua respiração enfraquece:
O zumbido das aranhas quando tecem,
E os sussurros minúsculos, murmúrios, suspiros
De larvas e moscas ociosas.
Este homem está tão tomado pela dor,
Que vagueia como um deus ou um ladrão
Por dentro e por fora, em baixo, em cima,
Sem alívio, procurando o amor perdido.
FILHOS DAS TREVAS
Incitamos os nossos pais ao beijo,
Embora, perante tal, tenham hesitado -
O dia não teve coragem para prosseguir
Com o que a escuridão lasciva por si podia fazer
Assim nascemos do seu carinho
No calor da meia-noite, um de dois
Esta semente nocturna não conhecia o descontentamento
Com certeza, as nossas transformações ocorreram
Embora existissem véus sobre o seu rosto.
Com premeditação, mesmo naquele lugar confinado,
Inclinamo-nos para a luz, assim,
Para reinos de espaço mais vasto
Será o Dia o erro primordial, esse remorso
Pelas Trevas que ainda ruge sem ser sufocado?
E nessa liberdade, conquistada pela fé,
Apenas actos de dúvida sejam cometidos?
Esses olhos que se abrem estão molhados de lágrimas -
Acaso recusamos em contemplar o sol?
FRAGMENTO DE UM POEMA PERDIDO
Ó, o momento lúcido, quando da boca
Uma palavra voa, corre imediatamente
Entre amigos, ou quando um presente amoroso surpreende
Como o desejo idêntico mais próximo do coração,
Ou quando uma pedra, lançada em perigo súbito,
Atinge a fera raivosa em cheio no focinho!
Momentos que nunca…
Robert Graves in Collected Poems 1959, Cassel & Company Ltd, 1959.
Versão Portuguesa © Luísa Vinuesa