William Wordsworth

UM VELHO EM VIAGEM

TRANQUILIDADE E DECADÊNCIA ANIMAIS,

UM ESBOÇO


Os passarinhos das sebes,

Debicando o caminho, nem o notam.

Ele prossegue, e no rosto, no passo,

No porte, uma expressão: e cada membro,

O olhar, a figura arqueada, sugerem

Um homem não movido a dor, mas sim

A pensamento. — Sem sentir, sujeito

A uma imperturbável calma: alguém

Que esqueceu todo o esforço; a quem a longa

Paciência deu aquela mansa fácies,

Dessa paciência agora nem parece

Precisar, por natureza levado

A uma paz tão total, que os novos olham,

Com inveja, o que é natural no velho.




VERSOS

DEIXADOS NUM ASSENTO AO PÉ DE UM TEIXO PRÓXIMO

DO LAGO ESTHWAITE, NUM ERMO DESOLADO DA MARGEM,

DOMINANDO UM BELO PANORAMA.



Não, Viajante, descansa! Este teixo

À parte está dos homens: e que tem

Que aqui regato algum se estenda à erva

E que a abelha aborreça estéreis galhos?

Porém, se a aragem for gentil, as ondas,

Que quebram contra a costa, hão-de embalar-te

Com um doce impulso a salvo do ócio.

Quem juntou

Estas pedras e com musgoso céspede

As untou, e ensinou ao velho lenho

A formar com os braços um recesso,

Desse hei-de recordar-me. — Dono de alma

Invulgar. Educado em ciência,

E guiado por natura a sítios ermos

De altas esperanças, ele ao mundo foi

Um Ser agraciado, sem desejos

Que o espírito execra; contra a mácula

De línguas dissolutas, ciúme e ódio,

E escárnio, — armado contra inimigos,

Contra tudo menos desdém. O mundo

Não lhe deu serventia; só razões

E indignação p’ra se afastar de súbito,

E a orgulho nutriu a sua alma

Em solidão. — Estrangeiro! os ramos tristes

Chamavam-no; e aqui vinha sentar-se,

Suas visitas ovelhas perdidas,

O cartaxo, ou o oblíquo maçarico:

E nestas pedras estéreis, salpicadas

Com fetos, urze, cardos e juníperos,

Fixando o olhar baixo, ele, de horas mórbidas

Desfrutou, neste sítio desenhando

Um emblema prà sua vida estéril:

E, erguendo a cabeça, contemplaria

As paisagens remotas, — quão amáveis

Visões, — contemplaria até que fosse

Muito mais, e o seu peito transbordasse

De beleza, ’inda mais bela! Nem quando

À natureza ele já submisso,

Esqueceria os Seres a cujas mentes,

Cheias com obras de benevolência,

O mundo, a vida humana, aparentassem

Doçura igual: então suspiraria

No imo inquieto, pensar que outros sentiam

O que ele não devia: homem perdido!

Em visões nutriria a fantasia

Até vir-lhe água viva aos olhos. Foi-se.

Este vale enterrou-o, — eis o marco.

Se o teu coração as formas sagradas

Da imaginação jovem conservaram,

Estranho! sê avisado; pois o orgulho,

Conquanto disfarçado no seu muito,

É pouco; que aquele que despreza

Qualquer ser vivo, possui faculdades

Que nunca experimentou; que o pensamento

Está na infância. O homem cujo olhar

Está sempre nele próprio olha a menor

Das obras naturais, quem levaria

O sábio ao escárnio que a sabedoria

Crê ilícita, sempre. Oh, sê tu Sábio!

Ciente que o saber leva ao amor;

A dignidade vera habita em quem,

Na silente hora da circunspecção,

Não deixa de se suspeitar, e honrar

Com coração humilde.


[1795]




William Wordsworth in Poemas Escolhidos, Assírio & Alvim, 2018.

Selecção, Tradução, Introdução e Notas de Daniel Jonas.

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