Galway Kinnell
EM CHAMAS
Vive, aquele que na noite passada caiu de um tronco
Para um riacho, e toda a noite, preso por um tornozelo,
Ficou submerso na corrente, morto por uma unha negra
Não fosse ter sido segurado pelos dentes do seu cão.
Trouxe-lhe ovos cozidos e caldo.
Tossiu e acenou com a colher
Sentando-se e dizendo que jantaria sozinho,
Estando ele próprio exausto depois desse banho.
Sentei-me lá fora, ao sol, com o cão.
Usando uma meia no pé dorido,
Apoiado em enormes muletas, saiu a coxear
E dirigiu-se ao cão com uma raiva amarga.
Disse ao cão amarelo, o seu salvador:
Que o seu coração era fraco, e que não deveria
Deambular perto do riacho à noite;
Se todos os seus cães se afogassem, ficaria pobre.
Acariciou a cabeça e desapareceu no barracão,
Saíu com um martelo de pedra nas mãos
E erguendo o peso rochoso de muitos quilos,
deixou-o cair sobre a cabeça do cão.
Carreguei a carcaça, cavei fundo.
Saíu então com o que seria um trangalho pesado,
E derramando sobre a campa a sua caneca de trovão,
Despejou-a até ao fim e entrou para dormir.
Vi-o através do vidro e não dormia, olhando
Com olhos arregalados o pôr do sol, depois o brilho
Cegou o vidro - apenas um quadrado vermelho,
Uma casa em chamas a arder no meio do nada.
AURORA
Na lama da maré, antes do poente,
dezenas de estrelas-do-mar
rastejavam. Era
como se a lama fosse um céu
e imensas estrelas imperfeitas
se movessem tão vagarosamente
quanto estrelas reais cruzam o céu.
De repente, todas elas pararam
e, como se tivessem simplesmente
aumentado a sua receptividade
à gravidade, afundaram-se na lama,
desapareceram e ficaram imóveis,
e quando o poente surgiu sobre elas,
eram tanto invisíveis quanto
estrelas reais ao raiar da aurora.
POEMA DA NOITE
1
Passo a mão sobre
Declives, quedas, manchas de visão,
Pestanas quase inaudíveis,
Lábios que cedem tão facilmente
Que é um choque sentir por baixo deles
o sorriso dos ossos.
Um pouco abafados, mal cobertos,
Zigoma, maxilar, corneto.
2
Coloco a minha mão
Na lateral do teu rosto,
Inclinas um pouco a cabeça
na minha mão - e assim,
Sei que és um rado dorminhoco
envolvido pelo sono de inverno,
Um solitário, atordoado peso.
3
Uma maçã do rosto
Uma sobrancelha arqueada,
Uma pálpebra pálida
flutuam na escuridão,
E agora distingo
Um olho, escuro,
Envolto em distantes luzes inexplicáveis.
4
Quase sem tocar, seguro
O que só posso descrever
Como algumas das memórias mais profundas nos meus braços,
Não minhas, mas como se a vida em mim
Estivesse lentamente a recordar o que é.
Jazes aqui e agora na tua fisicalidade,
Neste belo grau de realidade.
5
E agora chega o dia, a jangada que se despedaça.
Penso em alguns ossos
A flutuar num rio à noite,
A luz das estrelas a soprar num ponto da água,
O rio a inclinar-se como uma onda em direcção ao vazio.
Galway Kinnell in Poems, Poemhunter, The World's Poetry Archive, 2012.
Versão Portuguesa de Luísa Vinuesa.